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“Ninguém quer a greve por querer”

16/06/2015

Nova presidenta da CUT-AL concede entrevista ao jornal Gazeta de Alagoas

Escrito por: ascom/CUTAL

 

ENTREVISTA DA PRESIDENTA DA CUT-AL, RILDA ALVES, AO JORNAL GAZETA DE ALAGOAS - 16.06.2015

 

“Ninguém quer a greve por querer”


Nova presidente da CUT/AL, Rilda Alves assumiu o cargo num momento delicado, com a data-base dos servidores a todo vapor

FÁTIMA ALMEIDA
REPÓRTER

Há duas semanas, quando chegou para participar do 11º Congresso Estadual da CUT, em Maceió, não passava, nem de longe, pela cabeça da trabalhadora rural Rilda Maria Alves, 44 anos, chegar à presidência da maior central sindical do Estado. Mas aconteceu.
Quando a sindicalista Amélia Rodrigues, candidata natural à reeleição, anunciou, de forma inesperada, a sua desistência, alegando questões pessoais, foi um corre-corre para construir uma nova candidatura que a substituísse, sem rachar a entidade e sem quebrar o momento de protagonismo feminino na história da CUT.
De uma hora para outra, sem tempo nem para pensar duas vezes, Rilda Maria viu-se candidata e saiu do congresso, no dia 30 de maio, eleita e empossada nova presidente da Central Única dos Trabalhadores.
Nem deu para tomar pé da situação. No dia 1º de junho, ela já dividia com Amélia a mesa de negociação, na primeira reunião do Movimento Unificado dos servidores do Estado, com o governador Renan Filho (PMDB). “Podemos dizer que aquele foi o único dia de transição”, diz ela, ainda ofegante com tanta mudança.
Ontem, entre uma missão burocrática e uma reunião com a comissão de negociação do Movimento Unificado, Rilda conversou com a reportagem da Gazeta, falou dos seus planos – ainda em construção – à frente da entidade e do desafio de querer unificar as lutas dos trabalhadores do campo e da cidade, em seus princípios mais elementares: a dignidade e a qualidade de vida de todos os trabalhadores.


GAZETA – Com quantos anos você começou a trabalhar?
Rilda Maria
– Venho de uma família de trabalhadores rurais e aos sete anos já ajudava na roça. Mas meu primeiro emprego com carteira assinada foi aos 14 anos, numa firma de fumo, na Vila Bananeira, na zona rural de Arapiraca, onde vivo até hoje. Trabalhávamos com a folha verde, em todo processo para curtir o fumo, preparando para mandar para as indústrias de processamento, em Salvador. 


Em que momento você se descobriu sindicalista?
Nesse trabalho, comecei a me deparar com algumas situações degradantes. Mesmo com carteira assinada, a gente tinha jornadas muito longas, às vezes virava a noite e não recebia hora extra. Era uma verdadeira exploração, ambiente muito ruim. As condições de trabalho eram ruins. A temperatura era muito quente, aquilo fermentava e nós ficávamos muito tempo em contato com aquele cheiro forte, sem nenhuma proteção, nenhum cuidado com a saúde do trabalhador. Aí comecei a pensar que, se a gente se organizasse, poderia mudar essa situação. Eram aproximadamente 200 pessoas trabalhando, eles tinham prazos a cumprir. Um dia conseguimos convencer as pessoas a parar o trabalho para que o encarregado dialogasse com a gente e ouvisse nossas dificuldades. Nem todo mundo parou, mas conseguimos negociar, ter aumento e pagamento das horas extras.


Quantos anos você tinha nessa época?
Uns 14 anos. Daí, comecei a acreditar na força coletiva, comecei a participar de grupos de jovens, através da Pastoral da Juventude Rural, onde se discutia a participação e organização da juventude nos processos. Comecei a participar mais ativamente dos processos de organização dos movimentos e fui convidada a participar do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arapiraca, como delegada de base, com a missão de organizar os trabalhadores e trabalhadoras dentro da minha comunidade. Já tinha maioridade nesse época.


No meio rural, há muitas situações degradantes de trabalho. Alguma coisa marcou sua trajetória?
Sim, acompanhando o pessoal do Ministério do Trabalho, numas visitas que eles fizeram em algumas fazendas da região, naquela época, havia muita mão de obra que vinha de fora, para trabalhar na cultura do fumo, e pude ver pessoas que viviam em galpões, junto com agrotóxicos, palha de feijão, fumo e, quando chovia, juntava muita lama. Eles faziam feira e a carne era estendida em varais, porque não tinha onde guardar. Aquilo me marcou. Eram situações degradantes, que o Ministério Público considerou, em alguns casos, como trabalho escravo. Foi aí que entrei, mesmo, para a diretoria do sindicato e comecei a militar de verdade.


Que mandatos você já exerceu?
No sindicato, fui secretária-geral, depois, na Fetag (Federação dos Trabalhadores da Agricultura), assumi a Secretaria de Mulheres e depois a Secretaria de Políticas Agrícolas. Fui a primeira mulher a assumir essa função na Fetag, e a segunda no País (na Contag). Antes, era uma função sempre ocupada por homens.


Você vem de um trabalho sindical basicamente rural e assume uma Central que reune trabalhadores rurais e urbanos. Isso causa um friozinho na barriga?
Confesso que sim. Sempre militei no meio rural e agora estou à frente da CUT, um local onde estão representadas todas as categorias de trabalhadores: rurais, bancários, da educação, Polícia Civil. É uma dimensão enorme e um desafio muito grande. Mas encaro como uma missão que foi colocada no meu caminho. Se é uma coisa que gosto, é de desafios. É um momento novo na minha vida, mas nem tanto, porque a Fetag também está dentro das pautas da CUT e tem debates e discussões dos quais a gente já participava.


Tem algum foco específico nesse seu novo trabalho?
Um dos desafios que terei é começar a olhar também para os sindicatos municipais e ajudar a organizá-los em todo o Estado. Sabemos das dificuldades de organizar os sindicatos, cada um com as suas especificidades, mas não estou só na presidência da CUT. Temos uma direção que estará se ajudando; as secretarias, cada uma com sua função – juventude, mulheres, igualdade racial – todas têm uma importância grande nesse trabalho de organização dos sindicatos.

Você assumiu no meio de um turbilhão, no momento do ‘vai ou racha’, entre o fechamento de negociação do Estado com seus servidores ou a iminência de uma greve. Está difícil?
Pois é. Estamos vivendo o grande desafio de negociar com o governo as reivindicações comuns e específicas dos servidores do Estado. E, vou ser sincera, achei que seria mais difícil. Quando o congresso finalizou, no sábado, tomei posse e, de imediato, já fui informada de que na segunda-feira tinha audiência com o governador sobre a pauta dos servidores. Eu teria que estar lá para negociar. Só que eu já tinha uma agenda para o dia 1º – uma viagem de trabalho pela Contag – e Amélia foi junto comigo na reunião com o governador. Só deu tempo de me apresentar como nova presidenta da CUT. Fiz uma fala e tive que sair às pressas para o aeroporto. A transição foi só esse dia. Nas reuniões seguintes, eu já participei para valer, de todo o processo de negociação. Confesso que pensei que seria pior, mas o momento de negociação em defesa de uma categoria, de uma base, é basicamente o mesmo.

Não viu diferença entre o campo e a cidade?
Para minha surpresa, não. É um grande desafio, que realmente vai valer a pena para o meu aprendizado. A convivência com esse mundo urbano que a gente pensa que é bem diferente, mas a pauta de reivindicações é basicamente a mesma. Em linhas gerais, as necessidades rurais e urbanas são as mesmas – por melhores condições de vida, trabalho digno. Tudo converge para melhores condições de trabalho, de educação, de saúde, de segurança, de moradia. Em muitos pontos, a pauta é a mesma, em outros, as necessidades se completam. Quando se reivindica saúde no campo, educação, mais escolas, está se reivindicando, também, a contratação de mais profissionais, melhores condições de trabalho, melhores salários para os servidores. Não dá para ser isolado.


Quando veio para congressos na CUT, seu nome já era cotado como candidata?
Não. Foi tudo muito rápido. Nunca passou pela minha cabeça. A candidata era a Amélia. Somente quando ela disse que não poderia ser candidata, começaram os rumores sobre meu nome. Foi surpresa para todos nós. Eram 14h, tínhamos até as 18h para fechar a chapa e a ideia era escolher um nome em que todas as forças se sentissem representadas, para não ter duas chapas. E havia uma decisão de que deveria ser mantida uma mulher, pela questão da paridade. O congresso foi construído em cima da paridade. Por isso se chegou ao meu nome.

 

Saindo da realidade local para a nacional. Como você vê esse momento da relação da CUT com o governo federal? 
Os movimentos sociais e os sindicatos estão vivendo um momento conflituoso, por tudo o que vem ocorrendo. Mesmo sendo um governo aliado, enquanto sindicatos e movimento, temos autonomia, e uma coisa que não podemos aceitar, seja de qual for o governo, é a perda de direitos dos trabalhadores, conquistados durante esses longos anos. Sabemos, também, das forças que tentam desestabilizar o governo, coisas que não são a realidade, mas nós, enquanto movimento, enquanto CUT, temos a responsabilidade de defender os direitos dos trabalhadores e preservar tudo o que foi conquistado até hoje.

Como você gostaria de marcar sua gestão?
Daqui a quatro anos, quando sair, quero olhar para trás e dizer “foi um grande desafio, e eu venci”. Quero deixar como legado o resgate da credibilidade no movimento sindical, na CUT. E quero trabalhar a unificação da luta dos trabalhadores e trabalhadoras no que for possível.


Hoje vocês têm mais uma rodada de negociação com o governo. Acha que tem clima de greve geral no serviço público?
Depende do governador. Ninguém quer a greve por querer. O que os servidores estão pedindo não é nada absurdo. E eles não querem a greve, porque ela não é interessante para ninguém: perde a sociedade, perdem os trabalhadores e o governo. Os servidores querem negociar, mas é necessário que o governo também queira. O governador pediu 100 dias para se estabilizar, já passou dos 150. É hora de dizer a que veio. ‡


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